29 de junho de 2010

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AINDA HÁ O QUE APRENDER

Se nos dedicarmos a aprender uma coisa nova de judaísmo por dia, durante todos os dias de nossa vida, seguramente chegaremos ao fim da estrada sem termos aprendido tudo”.

Ouvi do rabino Michel Schlesinger esta frase, e na ocasião me perguntei quanto haveria de fato para ser aprendido na tradição judaica. Sabendo que não haveria uma resposta objetiva, tampouco breve, passei a observar o quanto do ensino e do estudo é valorizado pelo judaísmo.

Em nossa oração diária, costumamos recitar duas vezes ao dia o “Shemá Israel”, trecho retirado da Torá, celebrado por nossos sábios como a “profissão de fé” do judaísmo. Neste trecho, somos convidados a algumas ações como, por exemplo, repetir aos nossos filhos (e gerações mais novas) o conteúdo do próprio “Shemá”, ensinando-lhes a base da tradição de Israel.

Durante a reza matinal (shacharít =a matutina, em hebraico), a recitação do “Shemá” é precedida e sucedida por bênçãos específicas, que envolvem e coroam a leitura do importante trecho. Numa delas, a benção “ahavá rabá” (com grande amor), pedimos a Deus que “dê ao nosso coração a capacidade de entender, raciocinar, ouvir, aprender e ensinar, observar e manter vivas as palavras do Estudo da Tua Torá com amor”.

Nesta tefilá, verificamos cada verbo individualizado, separado, como ações únicas e independentes. Contudo, no meio da frase aparecem ligados pela conjunção “e” os verbos aprender e ensinar, como se essas ações estivessem intimamente ligadas e fossem interdependentes uma da outra.

De fato, em hebraico esses dois verbos derivam da mesma raiz (o que não acontece em português, infelizmente), a saber “Lilmód” e “Lelamêd” – aqui, as letras em negrito representam a sequência que indica o radical: L.M.D.

Lilmód” e “Lelamêd” (aprender e ensinar) são duas faces da mesma moeda: enquanto aquele que ainda não aprendeu não pode ensinar, aquele que já aprendeu encontra-se obrigado (pela força verbal) a ensinar.

Aquele que aprendeu não pode simplesmente guardar seu conhecimento para si. Ensinar aos demais passa a ser para ele o cumprimento de uma obrigação moral.

Esta obrigação moral nos é transmitida pela Torá, no trecho transcrito em nossas hagadót de Pêssach: “E contarás ao teu filho naquele dia” a cada ano no sêder.

Mas o aprender e o ensinar não podem ser simples ações de ouvir e retransmititir sem qualquer consciência crítica. O judaísmo não quer de nós, que ouçamos e aceitemos simplesmente. Aprender, em hebraico, não é uma ação passiva, e aqui vai outra curiosidade envolvendo esse verbo na língua hebraica: “Lilmód” significa, ao mesmo tempo, “estudar” e “aprender”. Para o judeu estudar é aprender.

Para o falante do português e de outras línguas latinas, isso parece uma contradição, visto que estudar é um verbo ativo, enquanto aprender é ação passiva. Mas não para o hebraico. O aprendizado passa pela busca do saber e do conhecer. Aprender, sob a ótica da nossa língua comum, é verbo ativo, e como tal não se pode dar unicamente pela aceitação daquilo que nos é transmitido.

É aí que entendemos o porquê da bênção “ahavá rabá” pedir a Deus, mesmo antes da aprendizagem, a capacidade de entender e raciocinar. De questionar e discutir. De investigar e instigar.

De fato, o próprio texto da hagadá de Pêssach é composto, em sua maior parte, pelo texto talmúdico das discussões e opiniões de cinco grandes sábios da nossa tradição: Rabi Eliézer, Rabi Yehoshúa, Rabi Elazár ben Azaria, Rabi Akiva e Rabi Tarfón.

Eles nos ensinam sobre quatro tipos de filhos e suas perguntas. Sem entrar no mérito de cada pergunta em si, gosto de pensar que o judaísmo aqui nos ensina que, mais importante do que ter filhos que saibam responder a qualquer questão, é ter filhos que tenham a coragem de fazer qualquer questão. Seja a pergunta investigativa, como a do filho “chachám”, seja a pergunta instigadora do filho denominado “rashá”.

Em seguida, vemos desfilar as opiniões dos cinco sábios sobre os mais diversos assuntos ligados ao Êxodo, o evento fundador do povo judeu. Essas opiniões, muitas vezes contraditórias entre si, são igualmente expostas, sem retaliações, sem censuras.

O judaísmo nos convida a pensar e raciocinar, a perguntar e instigar, a discutir e interpretar, para então aprender e ensinar.

Um comentário:

Uri Lam disse...

Theo, eu me lembro que no meu Bar Mitsvá (lembrei-me dele no último dia 26 de junho, 28 anos do meu BM :-) que o rabino me perguntou: "o que vem antes de - E você amará o Eterno Teu Deus..."? Entao ele mesmo respondeu: "Shemá, Escuta!"
Há algumas semanas "inventei" uma "tefilát Arik Einstein", ou seja, quase todo o shacharit com melodias de Arik Einstein. e no Shemá, acabei criando um 'refrão' em "Veshinantam levanêcha"... e então me dei conta de como ensinar (e aprender) é central até mesmo no Shemá. e o que vem antes de "Você ensinará aos teus filhos"? "Veahavtá". Ensinar é um ato de amor, e só pode ensinar quem tem amor prá passar. Ninguém aprenderá nada de você prá valer, se não tiver amor pelo que ensina, e não tiver amor pelos teus alunos. Aí qq hora é hora e qq lugar é lugar de ensinar e aprender: em casa, no caminho, de dia, de noite. Bom, se estou aprendendo muita coisa no seminário rabínico, isso estou aprendendo dos meus professores: eles ensinam com amor.
E que sorte a dos teus alunos do Peretz, moré Theo!
um grande abraço
Uri