23 de julho de 2009

_

CRISTÃOS-NOVOS, MUÇULMANOS-NOVOS, CRIPTO-JUDEUS

A dispersão, as expulsões, perseguições e conversões forçadas diminuíram e muito o número de judeus no mundo no decorrer dos últimos 2000 anos. Obviamente, como historiador, não vou "cometer a inocência" de dizer que apenas nós passamos por este fenômeno. Inúmeros povos sofreram processos de aculturamento geral nesses 20 séculos, alguns pacíficos (muito raros) e outros muito violentos (a maior parte).

O que dizer? Bom, a História não é regular, nem tem mocinhos e bandidos, nem preto e branco, noite e dia, claro e escuro, corpo e mente. A História não é dualista nem maniqueísta. A História é fruto das ações sociais de diversos grupos. A História, enfim, não é assunto para ser explicada em um post, mas sim para ser estudada por toda a vida daquele que por ela se interessar.

Enfim, seguindo para o assunto do post... Em linhas gerais, todos sabemos que a vida judaica sob o Crescente foi muito mais suave, saudável, enriquecedora do que sob a Cruz. Isto não significa dizer que nunca houve períodos de intolerância sob esta ou aquela dinastia, sob este ou aquele califado. Tampouco significaria dizer que a Europa cristã era um inferno na Terra. Significa apenas que a violência gratuita, física e teológica foram muito mais recorrentes no "ocidente" do que no "oriente" (onde o ciclo de violências mais duras só começou em fins do século XIX e início do século XX da era comum.

É justamente neste período que vemos o finado Império Turco Otomano entrando em seu declínio. O grande império que sobreviveu brilhantemente por mais de 600 anos, composto na maior parte de sua existência por períodos de tolerância, crescimento, genialidade literária, arquitetônica, poética e filosófica começava seu caminho em direção ao destino de todos os impérios até hoje.

Não é à toa que é em seu período final que a violência desmedida e irracional toma conta das ações governamentais, como o infame genocídio armênio (entre 1915 e 1917) que fulminou 1 milhão e meio de pessoas, em um dos maiores absurdos já perpetrados durante o século XX por parte de um governo central contra seus próprios cidadãos e/ou cidadãos de sua responsabilidade.

Já no começo do século XIX, vemos que a situação começa a ficar difícil para os cristãos e judeus do Império. Crimes impunes, incitamento a violências por parte do governo (ou com seu consentimento), "remanejamento" de populações e também conversões forçadas tomam lugar na região. Não podemos deixar de lembrar que também árabes muçulmanos sofreram na mão da última dinastia turca: era a famigerada luta entre sunitas e xiitas, na qual inúmeras populações árabes muçulmanas também sofreram a tirania de sultões como Abdul Hamid II (ou Abd al-Hamid II), por exemplo.

Movimentos separatistas e independentistas pululavam nas diversas regiões do Império e, para coibi-las, a mão de ferro do Império descia pesado sobre os líderes de tais movimentos. Ao mesmo tempo, o sultão prometia a Herzl a liberação da livre imigração judaica para o Império, com a condição de que os judeus não se concentrassem em uma única área. Obviamwente o sultão sabia quem era Theodor Herzl, e queria evitar mais um movimento separatista-independentista na região. Por um lado era uma saída para os judeus que desejavam deixar a Europa desde fins do século XIX, quando a judeofobia (termo que eu prefiro a antissemitismo) voltava a crescer exponencialmente naquele continente. Por outro lado, inviabilizava por completo o sonho de Herzl e de seus seguidores.

Fiquem tranquilos, não estou fugindo ao tema. Acontece que sempre houve comunidades judaicas estabelecidas na terra de Israel. Em pequeno número, às vezes menor, às vezes maior, mas um assentamento constante desde a grande dispersão (a Diáspora), após a 4ª Guerra Judaico-Romana em meados de 135 e.c.. Invariavelmente, o Império tentava remanejar essas populações sempre que cresciam (o mesmo acontecia com cristãos), objetivando que eles nunca se tornassem maioria numa mesma região. Outras vezes, promovia conversões forçadas de vilas inteiras com o mesmo objetivo.

E assim surgem os "muçulmanos-novos", cripto-judeus menos famos que aqueles produzidos pela Inquisição. Frutos não de uma ação sistemática e duradoura como a tática cristã, mas sim de ações localizadas e pontuais. É sobre este tema que tratam os dois vídeos abaixo. Assitam.

Parte 1:



Parte 2:



Algo me chamou muito a atenção. A preferência por converter-se a ser obrigado a deixar a terra. Lembra-me a atitude de Raban Yochanan ben Zacai: convecido de que a guerra era inútil e que os romanos terminariam o episódio com a expulsão em massa e a destruição ampla, geral e irrestrita da capital da Judeia, o sábio mestre deixou Jerusalém num caixão (fingindo-se de morto) com o objetivo de negociar o estabelecimento de uma academia de estudos para ele e seus estudantes na cidade de Yavne, na terra de Israel, embora não em Jerusalém. Tudo para permanecer naquela terra.

Foi graças a ele e à Academia de Yavne que os estudos judaicos continuaram, dando espaço para a compilação da Mishná por Yehuda haNassí, lançando as bases do que seriam os Talmudim de Jerusalém e da Babilônia, as obras que permitiram que o judaísmo sobrevivesse séculos a fio. Mas esse é outro assunto. Ou não.

Um comentário:

Uri Lam disse...

espetacular este post, Theo, aprendi um monte. Na cidade (ou vilarejo?) de Sakhnin, em Israel, houve há pouco histórias de palestinos que contaram ter origens judaicas.
Um grande abraço e shabat shalom.