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23 de dezembro de 2011

Você sabia?

VOCÊ SABIA QUE OS ACONTECIMENTOS QUE DERAM ORIGEM À FESTA DE CHANUCÁ NÃO SE ENCONTRAM NARRADOS NO TANÁCH?

Isso se deve ao fato de as primeiras narrativas sobre a guerra dos Macabeus terem sido escritas em grego, o idioma mais difundido naquele momento histórico, mesmo na Judeia (aliás, Judeia é o nome grego da terra de Judá, e começa a aparecer nesta época). Por este motivo estas narrativas não entraram para o cânon judaico, embora constem da Bíblia católica, cuja canonização incorporou outros textos além dos escritos hebraicos.

Também a forma de comemorar Chanucá sofreu mudanças. Durante a antiguidade, e boa parte da Idade Média, o candelabro de 8 braços e 1 shamash não havia sido incorporado ao ritual de acendimento das luzes de Chanucá.

Até os séculos XIII ou XIV o acendimento era feito através de lâmpadas de óleo individuais, como aquela da história do Aladim. Somente a partir desta época é que surgiram os primeiros candelabros especialmente fabricados para comemorar a Festa das Luzes. Durante esta época, algumas autoridades rabínicas chegaram a proibir o uso da inovação, pois ela ia contra a tradição já estabelecida. Hoje, no entanto, é praticamente impensável comemorarmos chanucá de outra forma. E esse sempre foi o espírito judaico: tradição sim. Renovação sempre.

17 de maio de 2011

Colheita, ceifa... afinal, qual é a diferença?


Colheita se refere a frutos, ceifa se refere a trigo, arroz, cevada, centeio e grãos em geral. Por isso mesmo a Torá nos fala de Chag HaKatsír (Festa da Colheita) e Chag HeAssíf (Festa da Ceifa).
Na época do Templo em Jerusalém, os três principais chaguím do ano era chamados de “as Três Festas de Peregrinação”. Isso porque todo ano em Pêssach, Shavuót e Sucót o povo judeu deveria viajar até Jerusalém e fazer certas oferendas especiais no Templo.
E qual o motivo dessas peregrinações?
O ciclo anual judaico era intimamente ligado ao ciclo agrícola da terra de Israel e o mês da primavera marcava o primeiro mês do ano, pois é na primavera que iniciamos o plantio dos grãos e cereais. É nesse mês que comemoramos Pêssach (Chag haAviv, Festa da Primavera). Nesta época pedimos orvalho (umidade, mas não muita, pois os grãos não são bons se ficam encharcados).
Em Shavuót (Chag haKatsír ou Chag haBicurím, Festa da Colheita ou dos Primeiros Frutos) comemoramos a colheita dos primeiros frutos que foram plantados no ano anterior, após Sucót.
Em Sucót (Chag heAssíf, Festa da Ceifa) comemoramos a colheita dos grãos e cereais plantados no início da primavera (Pêssach). Ao fim de Sucót pedimos chuva, pois retomaremos o plantio dos frutos que serão colhidos na época de Shavuót no ano seguinte.
E como agradecimento por tudo o que a terra nos dá, nossos antepassados ofereciam no Templo o que de melhor havia sido colhido.
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Outra curiosidade é que a Torá não atribui apenas motivos agrícolas para os chaguím. A Pêssach e a Sucót também são atribuídas razões históricas: “Guardareis a festa dos ázimos porque foi neste dia que Eu vos tirei da terra do Egito” (Ex 12, 17); “Habitareis em cabanas por sete dias (...) para que saibam as vossas gerações que Eu fiz com que os filhos de Israel habitassem em cabanas quando os tirei da terra do Egito” (Lv 23, 42-43).
Contudo, a Torá não atribui um momento histórico a Shavuót. Porém, nossos sábios chegaram à conclusão que, da mesma forma que Shavuót está entre Pêssach e Sucót, assim também está a entrega da Torá entre a saída do Egito e a peregrinação no Deserto.
O problema estava em conciliar as datas. Por um lado, o texto bíblico afirma que o evento no Sinai ocorreu no terceiro mês da saída do Egito (Ex 19, 1), mas por outro lado ele afirma que Shavuót deve ser comemorado cinquenta dias após o dia seguinte de Pêssach (Lv 23, 15-16).
“Aqui não há contradição”, apontaram nossos sábios. A Torá diz no terceiro mês, não três meses depois. Sendo assim, o primeiro mês é Nissan, o mês de Pêssach; o segundo é Iyar; enquanto Sivan, o mês de Shavuót, é o terceiro.
Assim, em 6 de Sivan comemoramos Shavuót. Cinquenta dias após o Pêssach. No terceiro mês da saída do Egito.

18 de março de 2011

PARASHÁ TSÁV - SHABAT ZACHÓR


O Shabat anterior à Festa de Purim é chamado Shabat Zachór – Shabat “Lembre-se”. Isso porque lemos no maftir: “lembre-se do que lhe fez Amalec”.
Os amalekitas nos atacaram quando deixávamos o Egito, e assassinaram aqueles de nós que estavam mais fracos, sedentos e cansados daquela jornada. Por esse motivo, a Torá nos ordena a apagarmos a semente e a memória de Amalec.
E esse é o assunto da Haftará, que conta que em uma batalha, o rei Saul poupou Agag (rei dos amalekitas) e preservou os melhores animais do rebanho dos inimigos.
O profeta Shmuel, então, adverte o rei por ter desobedecido a Deus, que havia ordenado a morte de todo o povo amalekita e de seu rebanho.
Saul argumenta dizendo que os animais seriam utilizados em sacrifícios para Deus, mas Shmuel diz que a obediência ao Eterno é mais importante que os sacrifícios. Mais tarde, o próprio profeta se encarrega de matar o rei Agag.
E qual a ligação entre esse tal Shabat Zachór e a Festa de Purim? Por que o shabat anterior a essa festa tem de ser, obrigatoriamente, Shabat Zachór?
Acontece que, segundo o Midrash Esther Rabá, Hamán era descendente de Amalec. Mas de onde o midrash tira esta informação?
Simples. Na Meguilat Esther, Hamán é chamado de “HaAgaguí”, ou de “filho de Hamdata HaAgaguí”. Agaguí” significa relativo a Agag, ou descente de Agag.
Logo, se Agag era o rei dos Amalekitas na haftará, e se Hamán era descendente de Agag, então, Hamán é amalekita. Na literatura rabínica “Agaguí” e “Amalekita” são sinônimos.
“Zachor velo tishcach”! – Lembra-te e não te esqueças do que fez Amalec! O plano de Hamán para exterminar os judeus é o plano de Amalec através dos tempos.
No entanto, Amalec não se refere a alguém específico, ou a um povo em especial. Embora haja, mesmo entre nós, quem pense assim, Amalec não é necessariamente um outro povo que seja inimigo do povo judeu.
Em minha opinião, Amalec é um conceito: O Midrash Tanchuma explica a natureza do conceito de Amalec, através do próprio passuk, “Recorda-te do que te fez Amalec (...) que te encontrou (asher karchá) pelo caminho e feriu todos os enfraquecidos”.
Segundo este midrash, asher karchá” (“que te encontrou”) pode também significar “que te esfriou”. Amalec representa tudo aquilo que pod nos “esfriar” e esfriar nosso judaísmo.
Sendo assim, como conceito, Amalec também pode estar entre nós.
A racionalidade fria e sem vida que nos congela e nos afasta da nossa experiência judaica pode ser Amalec. Também o fanatismo intolerante dos nossos extremistas religiosos pode ser Amalec. Afinal de contas, os nossos extremistas NÃO SÃO melhores que os extremistas dos outros.
Quase no final da Meguilá lemos e aprendemos que os acontecimentos de Purim foram “Luz e Alegria para os judeus, regozijo e honra”.
Se apagarmos Amalec de nossas vidas não mais esfriaremos aqueles que encontramos pelos nossos caminhos e não mais nos esfriaremos. E assim, com luz e alegria, seremos luz entre as nações, trazendo regozijo e honra para aqueles que nos cercam.
Shabat Shalom!

30 de novembro de 2010

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ILUMINANDO A ESCURIDÃO

Corria o ano de 197 a.e.c. e o Império Selêucida, herdeiro direto da Macedônia de Alexandre, era o mandatário sobre a Judeia (o novo nome grego da antiga região de Judá). A cultura grega se espalhava pelo oriente e o helenismo era inevitável.

Grosso modo, dizemos que Helenismo é a mistura da cultura grega com as culturas dos diversos povos conquistados anteriormente por Alexandre. Era uma época de grandes trocas culturais, as quais tiveram muitas influências positivas em todo o mundo antigo e também sobre o judaísmo.


Mas tudo mudou quando Antíoco IV subiu ao poder em 167 a.e.c.. Para ele, todas as culturas anteriores deveriam desaparecer, dando lugar unicamente à cultura helênica. O judaísmo foi proibido por decreto sob pena de morte. E a tradição corria o risco de desaparecer.


Os sacerdotes, em sua maior parte, abraçaram o helenismo e poucos cohaním se opuseram quando Antíoco introduziu elementos da religião grega no Templo de Jerusalém, transformando-o em mais um templo dedicado a Zeus. No interior do Códesh haCodashím, o lugar mais sagrado do edifício, introduziu-se uma imagem do novo patrono.


Quando animais impuros passaram a ser sacrificados no altar outrora dedicado ao Eterno, várias famílias sacerdotais abandonaram o profanado templo, deixaram a cidade de Jerusalém, e se espalharam pela Judeia com o objetivo de manter o judaísmo vivo no máximo número de cidades que fosse possível.


Entre essas famílias, encontravam-se os Hasmoneus (Hashmonáim): Matitiáhu e seus filhos, que vieram a ficar conhecidos pelo apelido de Macabeus (macabím). Quando os selêucidas iniciaram a perseguição contra as famílias sacerdotais, que insistiam no judaísmo, os Hasmoneus iniciaram uma batalha na cidade de Modiín. A notícia se espalhou. Estava começando a guerra macabeia.


O restante é a história da reinauguração do Templo e de seu conhecido e propagado milagre do óleo que durou sete dias a mais do que se esperava, trazendo luz e esperança ao povo judeu. A guerra continuou por outros quase vinte anos, até que a Judeia fosse novamente independente e o povo judeu fosse livre em sua própria terra.


Contudo, depois de terminada a guerra, os Hasmoneus assumiram o trono da Judeia, em vez de restaurá-lo à dinastia de David e Salomão. Como eram sacerdotes, concentraram também o poder religioso em suas mãos. Pela primeira vez na história judaica, o poder político era também exercido pelo Cohen Gadol. Pela primeira vez, o povo judeu viva sob uma teocracia.


Além de usurparem o poder, os Hasmoneus também iniciaram uma série de perseguições contra tudo o que não fosse judaico sob seu ponto-de-vista. A população não judaica foi forçada a se converter ao judaísmo. Repetiam tristemente tudo aquilo contra o que haviam lutado seus antepassados, os gloriosos Macabeus.


Ora, desde o retorno do Exílio da Babilônia e da construção do Segundo Templo, conviviam em Judá dois tipos de judaísmo: um deles centrado no Templo e nos sacrifícios, o outro centrado em casas de reunião e nas tefilót. . Este último tipo de judaísmo também foi veementemente perseguido pelos Hasmoneus, que não o aceitavam como o judaísmo “legítimo e milenar”, representado pelo Templo.


Dentro da família Hasmoneana também ocorriam sangrentas lutas pelo poder, e sua intolerância e violência foram a marca de seus 140 anos de reinado.


O último rei Hasmoneu, e também último membro desta família, foi assassinado num complô armado por Herodes e pelo Império Romano. A Judeia perdia sua independência novamente.


Sempre que ensino sobre esse período na escola, os alunos me perguntam por que eles nunca ouviram falar disso antes. Por que só falamos dos Macabeus e do milagre das luzes? Por que não falamos do terrível período que se seguiu?


Talvez nossos sábios tenham preferido enfatizar o milagre e sua ligação com a espiritualidade, em lugar de contar a história de como os Hasmoneus não honraram a memória de seus antepassados. Com isso, os sábios buscaram enfatizar a promessa/obrigação bíblica de sermos luz entre as nações.


Será que a vergonha pelas ações dos Hasmoneus pode justificar nossa constante censura à sua história? Claro que não. É urgente que relembremos essa história ao lado da comemoração de Chanucá e suas luzes.


Rabi Moshé ben Nachmán, o Rambán, enfatizou sua opinião de que não restaram descendentes dos Hasmoneus exatamente por causa de sua usurpação do poder, sua violência e intolerância, seu ódio gratuito e seu desprezo por tudo o que não fosse judaico, e também por tudo o que não fosse suficientemente judaico em sua opinião.


É fundamental que ensinemos a nossas crianças os valores de liberdade pelos quais lutaram os macabeus, mas também é preciso recordar que o simples acender da chanuquiá não traz por si só a luz ao mundo e ao povo judeu.


São nossas atitudes frente aos outros (e frente a nós mesmos) que, no final, trarão a luz para nossas vidas e para toda a humanidade. E então a luta dos macabeus não terá sido em vão, e teremos realmente compreendido a natureza daquele milagre.

28 de dezembro de 2008

Festa das Luzes

É, eu sei. Está faltando um post sobre Chanucá. Mas como ainda acenderemos a última das velas esta noite, isso ainda me dá um dia inteiro para falar da Festa das Luzes (em hebraico: חג האורים - Chag haUrím).

Mas o que mais temos pra falar sobre a libertadora e gloriosa guerra dos Macabeus que já não tenha sido falado? De como a luta contra a assimilação e contra o Império Selêucida que ameaçava varrer para sempre o judaísmo da História foi bem sucedida, resultando, ao fim, na rededicação do Templo em Jerusalém e na independência da Judéia, duas décadas depois?

É. Isso tudo já foi falado. Mas o que aconteceu com os descendentes dos Macabeus? O que aconteceu após o milagre de Chanucá e a independência judaica?

"Macabeu" era o apelido de Yehudá, filho de Matitiáhu, iniciadores da revolta que se transformou em guerra. Todos os seus seguidores foram chamados a partir daí de macabeus. Matitiáhu, Yehudá, Shimón, Yonatán, Yohanán e Eliézer pertenciam à família sacerdotal dos Hasmoneus. Com a vitória macabéia e a independência judaica, os Hasmoneus foram alçados ao poder, dando início à dinastia Hasmoneana, que ocuparia o trono pelos próximos 115 anos.

No entanto, este era um "regime de exceção". Como os Hasmoneus eram uma família de Cohaním, foram alçados tanto ao poder político quanto ao poder religioso na Judéia. Nunca antes o trono havia sido ocupado por um sacerdote, ou um rei havia desempenhado o papel de Cohen-Gadol (Sumo-Sacerdote - כהן גדול). E a História tem provado desde a antigüidade que, quando isso acontece, bons ventos não costumam soprar.

Com a morte de Shimón (filho mais novo de Matitiáhu), seu filho Yohanán Hyrcanus assumiu o poder, transformando a Judéia, então, numa teocracia. Com direito a todos os mandos e desmandos de um governo típico deste regime. Era apenas a primeira geração dos Hasmoneus após a independência, e seu líder acabaria inaugurando um dos períodos mais tristes da História Judaica.

Seu ódio a tudo o que fosse helênico, o fez dedicar-se a acabar com tudo o que não fosse judaico. Numa guerra pela anexação da Samaria, arrasou a cidade de Shechém, destruindo o Templo israelita-samaritano do monte Guerizín, comandando o massacre da maior parte da população samaritana daquela época.

A partir de Hyrcanus, uma sucessão de monarcas judeus intolerantes ocuparam o trono, impondo o judaísmo e convertendo pessoas à força. Repetiam, tristemente, aquilo que havia sido feito contra os judeus no passado. Antes, Antíoco havia imposto pela violência o helenismo à população judaica; agora os monarcas hasmoneus impunham pela violência os judaísmo aos não-judeus que habitavam a Judéia. Diversas situações iriam gerar instabilidade no trono, levando a Judéia a perder sua soberania mais uma vez para um grande Império: Roma.

Eu poderia agora traçar um panorama geral do governo de cada rei desta dinastia, chegando a demonstrar como uma guerra civil de mais de 8 anos se instalou na Judéia, devido à intolerância dos hasmoneus e saduceus (tsedukím, partidários do judaísmo do Templo e contrários aos fariseus - prushím -, partidários do judaísmo sinagogal), os quais nunca aceitaram outra forma de judaísmo também como legítima. No entanto, não é a isso que este post se dedica.

O que proponho aqui é não nos repetirmos mais uma vez, evocando a glória e a luz dos macabeus ao acendermos nossas chanukiót, pois a luz não serve para iluminar o que já está iluminado. Não nos ofusquemos por tanta luz, mas saibamos deslocá-la sobre os períodos mais sombrios, iluminando-os para conhecê-los. Conhecê-los e não repeti-los.

Celebremos o milagre de Chanucá. O milagre de podermos nos iluminar a nós mesmos, possibilitando, assim, cumprir o propósito maior de irradiarmos luz entre os povos.

Chag Chanucá Samêach!!! - !!!חג חנוכה שמח